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A propósito do Dia Internacional da Mulher, a BE selecionou 20 portuguesas que se destacaram pelas suas ações, no seu tempo:



         CAROLINA BEATRIZ ÂNGELO (1878-1911)
Lutadora incansável dos direitos das mulheres. Médica de profissão, criou e dirigiu a Associação da Propaganda Feminista. Republicana convicta, lutou pela eclosão da República em 1910 e foi a primeira médica operadora portuguesa. Em maio de 1911, no âmbito das eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, tornou-se na primeira mulher a votar numas eleições. Beatriz Ângelo, que já não tinha marido, criava sozinha os seus filhos, exigiu que o tribunal reconhecesse o seu direito ao voto, tendo exercido o seu direito nas eleições constituintes de 1911. Para evitar que outras mulheres seguissem o seu exemplo, a lei foi alterada no ano seguinte, com a especificação de que apenas os chefes de família do sexo masculino poderiam votar.

        ADELAIDE CABETE (1867-1935)
Nascida em Elvas, filha de operários, Adelaide de Jesus Damas Brazão casou-se aos 18 anos, concluiu a instrução primária aos 22, terminou o liceu aos 29 e licenciou-se em Medicina aos 33. "A proteção às mulheres grávidas pobres como meio de promover o desenvolvimento físico de novas gerações", foi a sua tese de licenciatura, em que, extravasando as fronteiras da ciência, propôs a criação de uma lei que permitisse às trabalhadoras repousarem no último mês de gravidez, beneficiando de um subsídio retirado dos lucros da empresa, do Estado e de uma quotização entre os trabalhadores. E propunha a criação de maternidades, creches, asilos para a infância, instituições de solidariedade social... Um prenúncio das matérias que há de defender até ao fim da vida. Republicana, feminista, lutou pelos direitos das mulheres, das crianças, dos pobres, dos animais... Lutou por uma sociedade equitativa e saudável.

        GUILHERMINA SUGGIA (1885- 1950)
Abriu as portas profissionais do violoncelo às mulheres. De facto, o considerável gasto de energia exigido para manejar a envergadura do violoncelo, acrescido do facto de as boas maneiras da época obrigarem a colocar o instrumento de um ou outro lado do corpo obrigando a uma significativa contorção do dorso, tornavam o instrumento ainda mais inacessível às executantes femininas. (Note-se que ainda em 1930 o violoncelo era tido como um instrumento indecoroso para as mulheres, sendo então proibida a contratação de violoncelistas mulheres pela própria orquestra da BBC). Em 1937 foi agraciada com o grau de Comendadora da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, uma honra raras vezes concedida a senhoras, e em 1944 com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Cristo. Em 1938 recebeu a Medalha de Ouro da cidade do Porto.

         IRENE LISBOA (1892-1958)
O seu nome lê-se em placas de escolas, bibliotecas, avenidas, ruas, largos e pracetas, mas a sua obra poucos conhecem. "Tudo é dos outros/e me foi sempre negado", escreveu a pedagoga inovadora. Escritora de prosa e poesia, precursora da escrita moderna em Portugal, Irene do Céu Vieira, impedida de dar aulas, sofre em silêncio, escrevendo, vendo os seus artigos nos jornais serem censurados pelos mesmos que a proibiram de proferir conferências. Mas não desiste. Será a única mulher entre 34 homens, no jantar do 20º aniversário da revista de oposição democrática "Seara Nova", em que colabora com nome de homem. Trinta e um anos após a sua morte, foi-lhe atribuída a comenda da Ordem da Liberdade.

5        MARIA LAMAS (1893-1983)
Batizada com o nome de Maria da Conceição, nasceu em Torres Novas, numa família da média burguesia. Pensou ser freira, foi jornalista, escritora, feminista, lutadora... Pagou com a prisão e o exílio a defesa dos seus ideais. E não queria cair no esquecimento: por diversas vezes dirá à filha mais nova que não rasgue as suas cartas por ser importante que se conheça o seu pensamento. Aos 81 anos, por uma questão de coerência de vida, filiou-se no Partido Comunista Português. É um símbolo da luta pela emancipação da mulher e pela democracia. Impossível esquecer o seu papel.

         AMÉLIA REY COLAÇO (1898-1990)
A figura mais marcante do teatro português no século passado. Empenhou-se na dignificação social do ator, conquistando para ele um estatuto de superioridade, à medida que organizava um reportório ambicioso, à revelia da censura. Chamou pintores prestigiados para colaborarem na cenografia, Apostou muito em peças declamadas. Os espetáculos em exibição foram muitas vezes baseados em obras de grandes escritores portugueses (como Gil Vicente, Garrett, ou Eça de Queirós) e internacionais (Arthur Miller, Tennessee Williams, Shakespeare).

7       EDMÉE MARQUES (1899-1986)
"Certifico que Branca Edmée Marques fez um trabalho bastante útil no meu laboratório desde o início de Novembro de 1931", assim começava a carta de Marie Curie que não sensibilizou o Governo português para prorrogar a bolsa de estudo atribuída à cientista. Quem pegou no seu trabalho fez descobertas importantes, mas a lisboeta foi obrigada a voltar a Portugal, onde a mulher e a Ciência valiam pouco, muito embora já se caminhasse no século XX. Doutorada aos 36 anos, diretora do centro de estudos de Radioquímica do Instituto de Alta Cultura, só será professora catedrática, efetivamente, em 1966, com 67 anos e tendo já contribuído grandemente para a investigação científica do país, em especial, quanto à utilização da energia nuclear para fins pacíficos.

   LOURDES SÁ TEIXEIRA (1907-1984)
Nascida em 1907, foi a primeira aviadora portuguesa. Maria de Lourdes Sá Teixeira teve de vencer a resistência da própria família e da sociedade da época para ser admitida como aluna civil na Escola de Aviação Militar em 1925. Em 1928, com 21 anos de idade, torna-se na primeira mulher aviadora portuguesa. 

     
     VIEIRA DA SILVA (1908-1992)
Em 1956, a revista "Elle" elegeu-a a francesa do ano. Vivia há algum tempo em França, todavia, não aceita a distinção, fazendo lembrar que é portuguesa, nascida em Lisboa.
Mas, nesse mesmo ano, optaria pela nacionalidade do país que a acolhera. Optaria, logo depois de Oliveira Salazar lhe ter proposto aquilo que lhe recusara quase duas décadas antes, quando ela e o marido quiseram ser cidadãos lusos e o ditador a chantageou, condicionando a aceitação ao divórcio. Maria Helena Vieira da Silva perdera a cidadania ao casar-se, aos 22 anos, com o pintor Arpad Szenes, judeu apátrida nascido na Hungria, o amor da sua vida... Só na década de 70 do século XX, Portugal reconhecerá que o seu talento para a pintura fazia História.

1     CESINA BERMUDES (1908-2001)
Acreditava que se faziam várias passagens pela Terra para aperfeiçoar o espírito e, desta feita, só se dedicou à investigação científica... formou-se em Medicina, especializou-se em Obstetrícia, doutorou-se com 19 valores, introduziu em Portugal o parto sem dor, defendeu os direitos das mulheres, inscreveu-se no Partido Comunista para combater o salazarismo, ajudou a nascer inúmeros bebés de mães perseguidas pela ditadura que também a há de prender... ainda se interessou pela literatura e pelo desporto. Mas, para si, a Medicina foi tudo.

1    SOPHIA DE MELLO BREYNER (1919-2004)
Nascida no Porto, de origem dinamarquesa pelo lado paterno e educada num meio aristocrático, esteve muito cedo ligada à luta antifascista e, a seguir ao 25 de Abril, foi deputada à Assembleia Constituinte. Dedicou-se à poesia, aos contos e fez também algumas traduções. Em 1999 recebeu o Prémio Camões, o mais prestigiante galardão da literatura lusófona. Até então nunca tinha existido um português a receber esta distinção. Em 2003, conquistou o célebre Prémio Rainha Sofia da Poesia Iberoamericana. Está sepultada no Panteão Nacional.


      AMÁLIA RODRIGUES (1920-1999)
Cantora, fadista, atriz de teatro, cinema... é uma das grandes cantoras mundiais do século XX, a maior voz do fado português. Foi idolatrada em Portugal e não só. Mulher intuitiva que não se sentia fadista, sim artista... que dizia dever o êxito à tristeza, ao medo, à timidez... que dizia que cantava, cantando... que dizia ter ganho o direito de ser só Amália e não Dona Amália, como lhe chamavam os admiradores, por julgarem mostrar, assim, mais respeito pela mulher que levou o fado ao mundo e, ao longo de meio século, gravou mais de centena e meia de discos, entrou numa dezena de filmes, deu inúmeros espetáculos. E não fez mais porque não quis. Graças a ela, o fado começou a ser conhecido e apreciado em vários países. Encontra-se sepultada no Panteão Nacional.


      AGUSTINA BESSA LUÍS (1922)

Autora de mais de cinquenta obras, entre romancescontospeças de teatro, biografias romanceadas, crónicas de viagem, ensaios e livros infantis, é traduzida para alemão, castelhanodinamarquêsfrancêsgregoitaliano e romeno.
O seu livro-emblema, A Sibila, já atingiu a vigésima quinta edição.
Além da atividade literária, foi membro do Conselho Diretivo da Comunitá Europea degli Scrittori (Roma). Colaborou em várias publicações periódicas, tendo sido diretora do diário O Primeiro de Janeiro (Porto). Entre 1990 e 1993 assumiu a direção do Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa) e foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social. É ainda membro da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres (Paris), da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa (Classe de Letras).


  NATÁLIA CORREIA (1923-1993)
Açoriana de São Miguel, deixou a ilha aos 11 anos, e rumou a Lisboa para estudar. Fez da vida aquilo que poucas contemporâneas suas se puderam gabar, tornando-se numa das grandes figuras do século XX. Romancista, poetisa, boémia, dramaturga, ensaísta, deputada, proprietária de uma loja de antiguidades, dona de um bar... Natália Correia, com as suas écharpes, longas boquilhas e um grande talento oratório, distinguiu-se pela inteligência e pela obra. "Eu pareço entusiástica, exuberante, mas é só por fora. É a minha forma de me libertar das tensões que as pessoas mordem dentro de si. Interiormente, tenho a imobilidade de um ídolo oriental. Mas não sou fria. Sou até um ser profundamente afetivo", disse.

   CATARINA EUFÉMIA (1928-1954)
Jovem mulher do campo, analfabeta, que nasceu e viveu na aldeia alentejana de Baleizão. A 19 de maio de 1954, acompanhada por 13 colegas ceifeiras reclamou, junto do feitor, melhorias salariais. Este, sentindo-se em perigo, deslocou-se a Beja para chamar o dono das terras e a GNR. Ao chegarem ao local, Catarina terá dito ao Tenente Carrajola que estavam ali porque exigiam uma vida melhor. A resposta não agradou e o tenente deu-lhe um murro. De seguida, Catarina terá dito que só faltava mesmo matarem-na. Sem hesitação, o tenente Carrajola disparou 3 vezes. Catarina, que tinha ao colo um dos seus 3 filhos (que era o mais novo, tinha 8 meses), acabou por falecer. Foi assim, sem dúvida, uma figura que lutou contra o Estado Novo.

1      MARIA DE LOURDES PINTASILGO (1930-2004)
Foi a primeira (e até hoje a única) Primeira-ministra de Portugal. Ocupou esse cargo entre junho de 1979 e janeiro de 1980. Em toda a Europa era a terceira mulher a assumir um lugar daquela dimensão. Era licenciada em Engenharia Químico Industrial, um curso que, na época, tinha apenas 3 mulheres como estudantes. Foi eleita, por quatro anos, membro do Conselho Executivo da UNESCO, por proposta dos países ocidentais, durante a Conferência Geral de 1976, realizada em Nairobi, pelo reconhecimento das suas capacidades na resolução de problemas difíceis e pelo seu conhecimento profundo em matérias como ciência, educação e cultura.

        RUTH GARCÊS (1934- 2006)
 Licenciada em Direito pela Universidade de Coimbra, em 1956, foi a primeira mulher a ingressar na carreira de juiz, em 1977. Seguiu depois para o Tribunal da Relação de Lisboa, onde foi também a primeira Juíza Desembargadora do país. Foi condecorada por Jorge Sampaio, à data Presidente da República.

      PAULA REGO (1935)
  Uma das figuras proeminentes da arte portuguesa, com vida e obra em Londres, é com naturalidade que expressa influências das escolas de lá mas é também com prazer que discursa no seu país a partir da sua linguagem pictórica e plástica. O seu espólio criativo posiciona-se pelo mundo, destacando-se Portugal e Inglaterra como os sustentáculos de uma carreira vivida e em constante mutação. Grande parte do seu trabalho inclui, como temáticas, o folclore tradicional e os contos e efabulações que conheceu em criança, contrastando o novo com o velho e juntando o humano com o animal. Recebeu um doutoramento honorário na Winchester School of Art, na Universidade de Oxford e na Rhode Island School of Design. Para além disso, em Portugal, recebeu a Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago de Espada em 2004.

       MARIA JOÃO PIRES (1944)
  Natural de Lisboa, atualmente reside no Brasil. Aos cinco anos deu o seu primeiro recital e aos sete tocou publicamente concertos de Mozart. Embora tenha decidido deixar de ter a nacionalidade portuguesa há alguns anos, pode considerar-se como a pianista portuguesa mais famosa de sempre. Ganhou fama internacional em 1970 quando venceu, em Bruxelas, o concurso internacional que marcava os 200 anos do falecimento de Beethoven. Desde então tem feito concertos em várias partes do mundo, tocando Bach, Mozart ou Beethoven. Europa, Canadá, Japão, Israel e Estados Unidos, são os locais onde mais toca. Em 2015 conquistou o Gramophone, o prémio de maior prestígio que distingue os melhores artistas da música clássica.

       ROSA MOTA (1958)
  Nascida no Porto, é uma das grandes referências do atletismo mundial do século XX. Entre várias conquistas, a que se destaca é a medalha de ouro obtida na maratona dos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. Um feito que deixou os portugueses surpreendidos e orgulhosos. Foi a primeira portuguesa a conseguir alcançar o ouro na maior competição desportiva do mundo.



E MUITAS, MUITAS OUTRAS …

Se virmos a realidade, as mulheres são mais sólidas, mais objetivas, mais sensatas. Para nós, são opacas: olhamos para elas, mas não conseguimos entrar lá dentro. Estamos tão empapados de uma visão masculina, que não entendemos. Em contrapartida, para as mulheres nós somos transparentes.
José Saramago
 Nobel da Literatura 1998

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