terça-feira, 24 de março de 2015

Por Herberto Helder...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

quinta-feira, 19 de março de 2015

As turmas A, D e E do sétimo ano tiveram a oportunidade de conversar com o escritor Alexandre Honrado.

Os alunos leram obras do autor e manifestaram muita curiosidade em conhecê-lo. E Alexandre Honrado respondeu a todas as perguntas.



Leituras...



Sessão de autógrafos



O escritor colaborou na nossa Árvore da Poesia:

"Só quando nos damos recebemos.
Só quando inventamos o tempo nos detemos.
Só quando percebemos que somos podemos ser o outro.
Ou a folha ao vento.
O sentimento."


quarta-feira, 18 de março de 2015

Apresentações em inglês sobre figuras históricas do século XX, que se destacaram pela sua luta pelos Direitos Humanos.

Os alunos são do 11ºF, da professora Paula Mendes.



Apresentação sobre Irena Sendler, enfermeira polaca que salvou milhares de crianças judias durante a II Guerra Mundial.


Exposição sobre Malcolm X, ativista americano na área dos Direitos Humanos.


Trabalho sobre Nelson Mandela que, de prisioneiro político, chegou a presidente da África do Sul.


Apresentação sobre a vida e a obra de Eleanor Roosevelt, ativista dos Direitos Humanos.



Alunos do 11ºA:

Apresentação sobre Malala, Prémio Nobel da Paz 2015.




Apresentação sobre Médicos Sem Fronteiras




Apresentação sobre Nelson Mandela.



All in english...

terça-feira, 17 de março de 2015

Nas sessões sobre "Literacia Financeira", orientadas pelo Dr. José Lima,  participaram o 9ºA, o 9ºB, o 9ºC, o 9ºD, o 9ºF e os 10º D e E.



Os alunos tomaram conhecimento de algumas curiosidades acerca do dinheiro e da moeda europeia e, o mais importante de tudo, receberam a mensagem de que todos os recursos escassos devem ser poupados, bem utilizados, tendo em vista o futuro.

Agradecemos à Profª Nilda, ao formador e à mãe representante dos encarregados de educação, que nos facultou a realização destas sessões.
"Minutos de Leitura" - leitura de textos em todas as salas de aula e na BE, à mesma hora; os textos foram previamente selecionados pelos alunos e pelos professores de português.

9ºF:

Cena do Frade em Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente

9ºE:

Excerto de O Hobbit, J R R Tolkien

9ºD:



Apetece chamar-lhes irmãos,
tê-los ao colo,
afagá-los com as mãos,
abri-los de par em par,
ver o Pinóquio a rir
e o D. Quixote a sonhar,
e a Alice do outro lado
do espelho a inventar
um mundo de assombros
que dá gosto visitar.
Apetece chamar-lhes irmãos
e deixar brilhar os olhos
nas páginas das suas mãos.
                                                       José Jorge Letria



Perguntas de um Operário Letrado


Quem construiu Tebas, a das sete portas?Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Bertold Brecht

9ºC:
A Propósito de Ti

"Somos felizes. Acabámos de pagar a casa em Outubro, fechámos a marquise, substituímos a alcatifa por tacos, nenhum de nós foi despedido, as prestações do Opel estão no fim. Somos felizes: preferimos a mesma novela, nunca discutimos por causa do comando, quando compras a «TV Guia» sublinhas a encarnado os programas que me interessam, lembras-te sempre da hora daquela série policial que eu gosto tanto, com o preto cheio de anéis a dar cabo dos Italianos da Mafia.
Somos felizes: aos domingos vamos ao Feijó visitar a tua mãe, ficas a conversar com ela na cozinha e eu passeio com o Indiano, filho de uma senhora que mora lá no pátio; assistimos ao básquete dos sobrinhos dele no pavilhão polivalente, comemos uma salada de polvo no café durante os resumos do futebol, e voltamos para Almada à noite, com o jantar que a tua mãe nos deu numa marmita embrulhada no «Record», a tempo de assistir às perguntas sobre «factos e personalidades» do concurso em que a apresentadora se parece com a tua prima Beatriz, a que montou um pronto-a-vestir no centro comercial do Prior Velho.
Somos felizes. A prova de que somos felizes é que comprámos o cão no mês passado e foi por causa do cão que tirámos a alcatifa, que as unhas do animalzinho rasparam de tal forma que já se notava o cimento do construtor por baixo. Andamos a ensiná-lo a não estragar as cortinas, pusemos-lhe uma coleira contra as pulgas depois de uma semana inteira a coçarmo-nos sem entender porquê, passados dois dias o Fernando começou a coçar-se também e a acusar-me de cheirar a cachorro e levar pulgas para a repartição, o chefe avisou-me do fundo
- Veja-me lá isso, Antunes
de modo que pus também uma coleira contra as pulgas debaixo da camisa e o Dionísio, espantado
- Deste em cónego ou quê?
E eu, envergonhado, a abotoar o colarinho
- É uma coisa chinesa para o reumatismo, a Jóia Magnética Vitafor é uma porcaria ao pé disto
e como nas Finanças se respeitam o reumatismo e as coisas chinesas, nunca mais me maçaram.
Às segundas, quartas e sextas sou eu que vou lá abaixo levar o cão a fazer chichi contra a palmeira, às terças, quintas e sábados é a tua vez, e o que não vai lá abaixo fica à janela a olhar o bichinho a cheirar os pneus dos automóveis, com um ar sério de quem resolve problemas de palavras cruzadas que os cães têm sempre que farejam postes e Unos.
Somos felizes. Por isso não me preocupei no Sábado com o animal, muito entretido na praceta, e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a nadares devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze horas tirei o cozido do forno e comi sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa, nem pinturas, nem a fotografia do teu pai, nada.
Ainda há bocadinho acabei de gravar o episódio da novela para ti. A tua mãe telefonou, a saber porque é que não fomos ao Feijó, e eu disse-lhe que daqui a nada lhe ligavas. Porque tenho a certeza de que tu não te foste embora, visto sermos felizes. Tão felizes que um dia destes vou comprar um micro-ondas para, se chegares a casa, teres a comida quente à tua espera."
                                                                                                                                                                             António Lobo Antunes

9ºB: 
Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
                                                                                        Eugénio de Andrade


Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.


Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
António Gedeão



Porque os outros se mascaram mas tu não 
Porque os outros usam a virtude 
Para comprar o que não tem perdão. 
Porque os outros têm medo mas tu não. 
Porque os outros são os túmulos caiados 
Onde germina calada a podridão. 
Porque os outros se calam mas tu não. 
Porque os outros se compram e se vendem 
E os seus gestos dão sempre dividendo. 
Porque os outros são hábeis mas tu não. 
Porque os outros vão à sombra dos abrigos 
E tu vais de mãos dadas com os perigos. 
Porque os outros calculam mas tu não. 



Sophia de Mello Breyner Andresen
8ºF:

Excerto do auto Breve História da Lua, António Gedeão

8ºE:



No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»                                                                                                                                                                                                                                               
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe.
Fernando Pessoa


8ºC:


Amor escreve-se com água

 Querida 

Acabo de receber a carta que me enviaste pelo cabo submarino. Vinha um pouco húmida, mas dada a enorme distância líquida que nos separa, é perfeitamente compreensível. 

Senti-me contente por te saber bem, assim como os pequenos, nessa calma profunda e silenciosa de que já tanta saudade tenho. 

O nosso trabalho, aqui, vai prosseguindo, lento mas eficaz. As falésias do litoral estão já suficientemente corroídas pelo nosso labor persistente, para permitir que as brigadas de chernes escavadores recentemente chegadas dos mares do Sul comecem a atuar em profundidade. 

Também a infiltração e demolição nos rios se tem feito como convém, obedecendo com rigor ao plano estabelecido, tudo na maior ordem e sigilo, graças às informações de uma exatidão realmente admirável que os salmões exploradores nos têm fornecido. 

Creio que esta parte do continente em breve começará a oscilar, a desaparecer nas águas, o que marcará o verdadeiro início do Grande Salto para o Fundo. 

Segundo informações concretas que aqui obtive, fiquei a saber que as Brigadas de Choque dos tubarões-martelo estão já a concentrar-se nas zonas previstas. Isto, por enquanto, é segredo rigoroso como calculas, claro. 

Compreenderás, querida, quanto me custa o estar tanto tempo separado de ti e dos pequenos mas, quando todos nós sabemos que este esforço culminará na aparição de um mundo melhor em que as águas serão realmente limpas e seguras, a separação torna-se mais suave.

Lembras-te da grande baleia branca que às vezes avistávamos aquando das férias que costumávamos fazer no Norte e a quem os pequenos chamavam de tia Josefa? Pois trabalha agora connosco; dirige as equipas de ataque com icebergs, calcula tu!

Apenas temos de lamentar certos golfinhos que se tornaram colaboracionistas, o que nos obrigou a expulsá-los. Felizmente são apenas casos esporádicos2, talvez até recuperáveis. 

Como vês, estamos realmente trabalhando para um futuro em que os novos de todos os mares possam vir a ter uma vida livre e digna. 

Querida, despeço-me de ti com saudade mas, também, com orgulho. Diz aos pequenos que o pai os recorda constantemente. Tem cuidado com o Chuxo, ultimamente andava com as guelras inflamadas. Não lhe dês algas poluídas, é um perigo, bem sabes.

 Águas transparentes para ti, meu amor 

do teu 

Estêvão


Mário-Henrique Leiria, in Novos Contos do Gin   


8ºB:

                                   As coisas melhores são feitas no ar,

andar nas nuvens, devanear,
voar, sonhar, falar no ar,
fazer castelos no ar
e ir lá para dentro morar
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respirar a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar,
a imaginação a imaginar,
                                   os olhos a olhar.

                                  (embora sem ver)
                                  e ficar muito quietinho a ser,
                                  os tecidos a tecer,
                                  os cabelos a crescer.
                                  E isto tudo a saber
                                 que isto tudo está a acontecer!
                                 As coisas melhores são de ar
                                 só é preciso abrir os olhos e olhar,
                                 basta respirar!

Manuel António Pina



7ºA:
Urgentemente


É urgente o amor 
É urgente um barco no mar 



É urgente destruir certas palavras, 

ódio, solidão e crueldade, 

alguns lamentos, muitas espadas. 

É urgente inventar alegria, 
multiplicar os beijos, as searas, 
é urgente descobrir rosas e rios 
e manhãs claras. 

Cai o silêncio nos ombros e a luz 
impura, até doer. 
É urgente o amor, é urgente 
permanecer. 



Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã" 



POEMA PEQUENINO


O poema pequenino está escondido

para quem o apanhar e entender.

Que rimar, eu acho, é divertido,

e o poema, se calhar, calha crescer.


Nasceu há uns minutos- que violento.
Ainda mal abriu os olhos, está a acordar.
Desconhece o Sol, o Amor, o Vento
E precisa de ti para sonhar.

Alexandre Honrado


7ºB:

Caminho da Manhã
 Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles escorre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada. 
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível. 
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'

 7ºC:


O Canário

                                       Lindo canário amarelo
cacei junto da ribeira,
meti-o numa gaiola
da mais bonita madeira.

Mandei-o dar de presente,
pelo Natal, à rainha,
que logo pôs o canário
na melhor sala que tinha.

                                      Vinham fidalgos de longe
                                      com suas dama de honor
                                      só para ouvirem trinar
                                      o passarinho cantor.

                                     Vinham orquestras e bandas,
                                     conjuntos de guitarristas,
                                     ao som da sua voz fina
                                     até choravam fadistas.

                                     Mas numa noite de inverno,
                                     depois de grande nevão,
                                     adoeceu o canário
                                     com uma constipação.

                                    Tapado com cobertores,
                                    deram-lhe chá de limão
                                    com três gotinhas de mel,
                                    outras três de vinho Dão.

                                   Ai, o canário a tossir,
                                   ai, o canário a espirrar!
                                   Mandem já vir os doutores,
                                   alguém o tem de salvar!

                                  Chegaram numa ambulância,
                                  a correr, do hospital,
                                  cem doutores de bata branca.
                                  Acharam que estava mal.

                                  Tanto, tanto comprimido!
                                  e tanta, tanta injecção!
                                  Ai, a maior delas todas
                                  trespassou-lhe o coração.

                                  Morreu o lindo canário,
                                  a rainha desmaiou.
                                  Agora, senhores, vou contar
                                  o que depois se passou.

                                 Vestiu-se a corte de luto
                                 para os tristes funerais.
                                 Vieram pombos e melros,
                                 periquitos e pardais.

                                 Mas veio o gato também
                                 ver o cortejo de luxo.
                                 Abriu a boca e meteu
                                 o canarito no bucho.

                                O meu rico passarinho,
                                num gato está sepultado!
                                Disse a rainha e guardou
                                o gato sempre ao seu lado.

                               Vêm fidalgos de longe
                               ouvir o gato miar
                               e miam os violinos
                               para o acompanhar.


Luísa Ducla Soares, Contos para rir, 6ª edição


7ºD:

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama

7ºE:
Helena e Arnaldo
A Helena e o Arnaldo têm uma surpresa. A pequena Helena, de sete anos, lançou impetuosamente a maçã mordida, por cima da vedação que dava para o prado.
- Não quero saber mais de ti! - foram as palavras que acompanharam a sua ação.
- Estás a falar comigo? - perguntou o irmão de cabelo ruivo, dois anos mais velho.
- Não, senhor russo, estava a falar só com a minha maçã!
- Não prestava? - quis saber o Arnaldo.
- Não, ela era boa, eu é que já não tinha fome! - retorquiu a irmã, com indiferença.
- Também não comi o meu pão! - observou o Arnaldo, ao se dirigirem ambos para casa.
- Deito sempre fora o que sobra. Para que havemos de ir carregados para casa com os restos?
- Não é verdade que os peixes ficaram bem contentes com o pedaço de pão que lhes atirei ontem, da ponte? - acrescentou a Helena divertida.
- Apanharam-no com toda a velocidade.
            Em breve chegaram ao portão do jardim onde a mãe estava à espera deles. Esta cumprimentou os filhos com as seguintes palavras:
- Estou contente por já estarem a chegar da escola. Venham até à cozinha contar-me como tudo se passou. Ao mesmo tempo, vou fazendo o comer!
            A senhora Beller, era esse o seu nome, já tinha notado muitas vezes como os filhos esbanjavam a comida. Muitas vezes isso causava-lhe mágoa. Mas ainda nunca tinha descoberto um plano verdadeiramente bom para poder ajudar os filhos a apreciarem mais o que tinham. À medida que preparava um bom jantar, desenhou-se-lhe nos lábios um sorriso astucioso. Acabava de ter uma boa ideia.
Na manhã seguinte, quando a Helena e o Arnaldo se sentaram à mesa, ficaram muito admirados, quando viram apenas, além de uma travessa, dois pratos rasos com as duas colheres.
 - Isto é que é o nosso pequeno almoço? - perguntaram as duas crianças, singularmente inquietas.
- Com certeza! - respondeu a mãe, com serenidade.
- Esta manhã estamos na Índia. Vocês sabem que há nesse país muitas crianças que não têm quase nada que comer!
- Mas nós não estamos na Índia, mãe! - disse o Arnaldo.
- Vamos fazer de conta que estamos! Para que possamos compreender melhor a miséria em que ali vivem tantos meninos e meninas. - elucidou a mãe.
A mãe deitou as papas de aveia nos pratos.
- O que vem a ser esta coisa gordurosa?
- Papas de aveia.
- Papas de aveia?
- Exactamente. Papas de aveia.
- Onde está a fruta, o pão, a manteiga e o doce? - perguntou de repente a Helena, um pouco desassossegada.
- Hoje não há nada disso, meus filhos.
Entretanto, as duas crianças, perplexas perante o enigma misterioso, encontravam-se a caminho da escola. Nunca, até aquele dia, a manhã tinha custado tanto a passar. Finalmente, puderam correr lá para fora, com os outros. Sentaram-se imediatamente num banco para lanchar. Abriram os sacos, onde devia estar a refeição que a mãe costumava preparar à terça-feira, porque nesse dia não podiam ir almoçar a casa. Mas lá dentro havia um bilhete curto. Este dizia: “Queridos filhos, hoje ao meio-dia estamos em África, onde não há muita comida. Muitas crianças morreram hoje com fome. Cumprimentos carinhosos da vossa mãe.”
- Só dois montinhos de arroz! - murmurou o Arnaldo, com voz seca.
- Só dois! - soou num eco, a voz de Helena.
- Se eu ao menos tivesse a banana e o pão que ontem deitei fora… -  gemeu o Arnaldo.

Então as crianças, pensativas, puseram-se a comer o arroz muito devagar, para durar mais tempo.
- A maçã que eu ontem atirei para lá da vedação era maravilhosamente sumarenta e doce como o mel! - observou a Helena.
Às quatro horas, quando a mãe vinha do batatal situado atrás do bosquezinho, viu os filhos de longe. Dirigiam-se para casa, o mais depressa possível. Mais um pouco e chegaram ao pé da mãe.
- Esta noite, vamos comer um pouco mais tarde, filhos! - anunciou. Tive muito que fazer, por isso o jantar só estará pronto às sete horas.
Às sete, não foi preciso ninguém chamá-los. Já estavam sentados à mesa, mesmo antes de a mãe trazer a comida. Esta fez de conta que não deu por nada.
O jantar nutritivo desapareceu como se fosse manteiga ao sol, e então reinou um silêncio, um tanto embaraçoso.
- Mãe! - disse a Helena quebrando o silêncio. Nunca mais vou deitar fora a comida.
- Eu também não, mãe! - concordou o Arnaldo com fervor. A Helena e eu preferimos esvaziar o nosso mealheiro e enviar o dinheiro às crianças pobres da Índia e da Africa. Posso comer mais um pãozinho com manteiga?

Autor desconhecido

7ºF:
Na idade dos porquês
Professor diz-me porquê?
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?

Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...

Tenho nove anos professor
e há tanto  mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.

É a luta professor
a luta em vez de amor.

Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.

Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.

Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...

E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.


Alice Gomes (1946)

Novidades na BE - DVD - “ O sonho de Wadjda”, de Haifaa Al-Mansour - “O Ilusionista”, de Neil Burger - “Noé”, de Darren Aronofsky -...